Recém-casados e sem acesso a crédito, casal de Ivinhema começou na suinocultura com recursos próprios e construiu uma das histórias de parceria e crescimento do setor em Mato Grosso do Sul
Quando Alice Akemi e Márcio Muraoka decidiram entrar na suinocultura, eles eram jovens, recém-casados e tinham mais sonhos do que recursos para realizá-los.
Alice havia acabado de sair da faculdade. Márcio tinha vindo de São Paulo para Ivinhema, enquanto ela era da própria cidade. Na época, as oportunidades de trabalho eram poucas e a cidade oferecia poucas alternativas para quem estava começando a vida profissional.
Foi nesse cenário que surgiu uma proposta da Seara. A empresa buscava parceiros em Mato Grosso do Sul para iniciar a produção de suínos, trazendo os leitões de outros estados para serem criados na região.
O casal decidiu apostar.
“Éramos muito jovens e recém-casados. A cidade era muito pequena e não tinha emprego, não tinha muita opção de serviço. Encontramos a proposta da Seara e fomos quase pioneiros nessa modalidade de produção”, conta Alice.
O problema era que, como jovens recém-formados, eles não tinham histórico financeiro para conseguir financiamento. Nenhum banco estava disposto a apostar naquele projeto.
A solução foi começar pequeno e crescer com os próprios recursos.
“Não tínhamos crédito. Não tinha banco que financiasse e acreditasse que a gente conseguiria tocar um negócio. Então fomos fazendo aos poucos, com recurso próprio”, relembra Alice.
O primeiro passo foi dado com apenas 70 matrizes.
Hoje, a Granja Muraoka possui 5 mil fêmeas ativas. Em 2025, foram entregues 165 mil leitões, e a meta para 2026 é chegar a 170 mil.
Entre os 70 primeiros animais e os milhares de hoje, existe uma história construída ao longo de anos de trabalho, persistência e parceria.
Crescer juntos
A expansão da granja acompanhou também o crescimento da família. Cada novo projeto representava uma oportunidade de avançar, mas também carregava uma preocupação que ia além da produção: garantir um futuro melhor para os filhos.
Para Alice, uma das maiores conquistas de toda essa trajetória foi justamente poder proporcionar educação aos dois filhos.
“Quando a gente tem filhos, sempre pensa em como proporcionar a educação deles. Quando começávamos um novo projeto, uma ampliação, eu pensava que aquela ampliação precisava conseguir me proporcionar pelo menos a faculdade dos meus filhos”, conta.
O objetivo foi alcançado.
Os dois filhos estão formados. Um deles já trabalha com os pais na atividade, enquanto o outro pretende retornar para perto da família e participar também da condução dos negócios.
Para o casal, essa possibilidade representa uma das maiores realizações de toda a trajetória.
“Uma das maiores realizações é ter conseguido proporcionar a faculdade para os nossos filhos”, afirma Alice.
Uma atividade que transformou a vida
A suinocultura foi muito mais do que uma escolha profissional para o casal. Foi a atividade que permitiu construir patrimônio, criar os filhos e realizar projetos que pareciam distantes quando tudo começou.
“Começamos muito jovens e com sonhos. Foi graças à suinocultura que conseguimos praticamente tudo que temos, com bastante trabalho e dedicação”, afirma Alice.
O caminho, porém, esteve longe de ser linear. Como acontece com a atividade, vieram períodos de alta e também momentos de dificuldade. A persistência foi necessária para atravessar os ciclos e continuar investindo.
Para Márcio, olhar para o tamanho que a granja alcançou é também olhar para uma trajetória de décadas.
O casal, que começou praticamente sem recursos, construiu uma operação que hoje faz parte de uma cadeia produtiva cada vez mais importante para a região e para o Estado.
O desafio de formar e manter equipes
Com o crescimento da produção, surgiu outro desafio: encontrar e, principalmente, manter profissionais.
Segundo Alice, a Granja Muraoka não enfrenta tanta dificuldade para atrair novos colaboradores. O problema está na permanência.
Cerca de 30% dos funcionários não permanecem por um ano, o que exige dos líderes um processo constante de treinamento e adaptação de novas equipes.
“O que é muito cansativo é essa rotatividade. Os líderes sempre têm que estar treinando, porque sempre tem colaborador novo chegando. Nosso desafio é fazer esse colaborador permanecer um, dois anos”, explica.
A realidade é diferente daquela encontrada pelo casal quando começou. Naquela época, havia menos opções de emprego na cidade e os trabalhadores disputavam as oportunidades disponíveis.
Hoje, a presença de grandes usinas na região aumentou a concorrência por mão de obra e mudou o mercado de trabalho.
Apesar disso, a granja também possui colaboradores com longas trajetórias. Há funcionários com 12, 15 e até 20 anos de casa — exemplos que, para o casal, mostram o valor de construir relações duradouras.
Sustentabilidade como parte da produção
O crescimento da Granja Muraoka também veio acompanhado de investimentos em sustentabilidade.
A propriedade utiliza biogás para geração de energia, uma alternativa que ajuda a reduzir um dos principais custos da atividade e, ao mesmo tempo, contribui para o aproveitamento dos resíduos da produção.
A geração de energia também é complementada por placas fotovoltaicas.
Mas as ações ambientais vão além da energia. A família mantém áreas de mata auxiliar, já realizou o plantio de mais de mil mudas e trabalha na proteção das nascentes e na redução do desperdício de água.
A água da chuva também é reutilizada.
Outro exemplo está na integração entre as atividades. A água resultante do sistema de tratamento de dejetos é utilizada na fertirrigação das pastagens, levando nutrientes para outra área produtiva da propriedade.
“Você acaba pegando uma coisa que seria um problema na suinocultura e trazendo benefício para dentro da pecuária. Isso é muito bacana”, explica Alice.
O cuidado também se estende ao bem-estar animal, incorporado às práticas de produção da granja.
A força de um setor unido
Para Márcio, a trajetória da Granja Muraoka também está ligada ao fortalecimento da própria suinocultura sul-mato-grossense.
Ele reconhece a importância da ASUMAS como espaço de representação e união dos produtores, especialmente diante do crescimento da atividade no Estado.
“A ASUMAS veio para fortalecer o nosso setor, a nossa categoria. Ela cria laços para conseguirmos recursos e meios de nos fortalecer como um setor competitivo e produtivo”, afirma.
É por isso que receber a homenagem da associação tem um significado especial para o casal.
“Eu me sinto muito honrado por esse reconhecimento. Não fui o pioneiro, mas fui um dos pioneiros nessa atividade”, destaca Márcio.
Uma história construída a dois — e que continua
A história de Alice e Márcio começou com uma decisão ousada. Dois jovens recém-casados, sem crédito bancário e com apenas 70 matrizes, decidiram acreditar em uma atividade que ainda começava a ganhar espaço na região.
Hoje, são 5 mil fêmeas, 165 mil leitões entregues em 2025 e uma meta de 170 mil para 2026.
Mas os números contam apenas parte dessa história.
Por trás deles está um casal que cresceu junto com a atividade, atravessou períodos difíceis, investiu, diversificou, cuidou da propriedade e encontrou na suinocultura os meios para formar os filhos e construir uma vida.
E, talvez mais importante, está uma família que começa a preparar a próxima geração para continuar a história.
O que começou com 70 matrizes não é apenas uma granja maior. É um projeto familiar que atravessou décadas e continua olhando para o futuro.
Na Granja Muraoka, a suinocultura não é apenas uma atividade econômica. É uma história construída a dois, sustentada por uma família e preparada para seguir por novas gerações.
