Da dificuldade à transformação: a trajetória de Rosilene e Antônio Vagner na suinocultura

Há 21 anos, casal de Itaporã encontrou na atividade uma alternativa para superar as limitações da pequena propriedade e construir novas oportunidades para a família

Em uma propriedade rural de Itaporã, no sul de Mato Grosso do Sul, a suinocultura nasceu da necessidade, mas acabou se transformando em uma história de conquistas, estabilidade e permanência no campo. É assim que Rosilene Cruz e Antônio Vagner, da Granja São Miguel, definem a trajetória construída ao longo de 21 anos na atividade.

A história começou antes mesmo da chegada dos primeiros animais. Em 1993, uma mudança na estrutura familiar reduziu o volume de terras disponível para o casal. Com menos área para plantar e sem condições de manter a renda apenas com a agricultura, Antônio passou a prestar serviços para terceiros com as máquinas que possuíam, enquanto a família buscava alternativas para continuar produzindo.

“Com a propriedade do tamanho que a gente tinha, a gente pensava: o que nós vamos fazer? A gente precisava de uma atividade para melhorar nossas condições financeiras”, relembra Rosilene.

A oportunidade surgiu em 2005, quando a Seara passou a trabalhar com uma modalidade de produção voltada à criação de leitões em crechário, modelo que permitia a participação direta da família no manejo. Com o apoio de parceiros locais e a orientação necessária para implantação do projeto, o casal decidiu apostar na atividade.

A decisão, porém, veio acompanhada de dúvidas. Para uma propriedade pequena, assumir um investimento daquele porte representava um desafio. O que pesou a favor foi justamente a possibilidade de a própria família estar à frente da operação.

“Era uma oportunidade que a gente tinha, mas a gente tinha aquele medo: será que a minha propriedade vai garantir um projeto desse tamanho? A gente sabia que não era barato. Mas conseguimos nos enquadrar, principalmente porque era a família que ia trabalhar”, conta.

Desde então, Rosilene e Antônio dividem a rotina da granja. No dia a dia, são os dois que conduzem a maior parte das atividades, com apoio de diaristas nos períodos de maior demanda, especialmente quando chegam novos animais e o trabalho se intensifica.

Ao longo dessas duas décadas, a propriedade também manteve outras atividades, como lavoura e criação de gado, atualmente destinadas principalmente ao consumo e às necessidades da própria fazenda. A diversificação ajuda a manter a conexão da família com diferentes frentes da produção rural.

Uma nova realidade para a família

Mais do que uma nova atividade econômica, a suinocultura representou uma mudança significativa na vida da família. Depois de um período inicial considerado difícil, a produção trouxe maior estabilidade e permitiu que o casal realizasse conquistas que antes pareciam distantes.

A antiga casa de madeira deu lugar a uma moradia mais estruturada. Vieram também uma área de lazer, terrenos, veículos novos e, mais recentemente, a aquisição de um trator.

“Hoje eu falo que eu não tenho tudo que eu quero, mas eu tenho tudo que eu preciso. A gente conseguiu melhorar bastante o nosso padrão de vida. E sou muito grata por essa oportunidade”, afirma Rosilene.

A atividade também contribuiu para a formação e o desenvolvimento das filhas. Uma delas é arquiteta, enquanto a mais nova, de 28 anos, concluiu Ciências Contábeis e Pedagogia e atualmente trabalha em uma escola e na área contábil. A família cresceu, ganhou uma nova geração e hoje também conta com a neta Maria Antônia.

Persistência diante das mudanças

Ao longo dos 21 anos de atividade, nem tudo foi simples. Um dos principais desafios apontados pelo casal foi a mudança de empresas integradoras e, consequentemente, de modelos e exigências.

“Cada empresa tinha sua política. Então a gente tinha que se adaptar e fazer da forma que agradasse à empresa”, explica Antônio.

A capacidade de adaptação, no entanto, foi uma constante na trajetória da Granja São Miguel. O casal permaneceu na atividade e acompanhou as transformações do setor, buscando também incorporar práticas voltadas à sustentabilidade.

Na propriedade, já são utilizadas energia solar, irrigação, captação de água e descarte adequado de resíduos. São medidas que fazem parte de uma visão de produção em que eficiência e responsabilidade ambiental caminham juntas.

Uma história que merece ser lembrada

Hoje, a Granja São Miguel trabalha com uma capacidade de cerca de 3,7 mil animais. Para Rosilene, o tamanho da produção torna a homenagem recebida pela ASUMAS ainda mais significativa.

“Você vê que alguém te percebeu, que está te vendo. A gente tem uma creche de 3,7 mil animais só. Então eu fico muito feliz e só tenho gratidão por essa homenagem”, afirma.

Para Antônio, o reconhecimento também representa uma forma de valorizar quem construiu sua história de maneira silenciosa, enfrentando dificuldades e permanecendo no campo.

O casal também destaca a importância da ASUMAS como representante dos produtores e como espaço de interlocução para o setor. Para eles, a entidade passou a ocupar um espaço que antes fazia falta: o de levar as demandas dos produtores às discussões e negociações.

“Para nós, produtores de suinocultura, a ASUMAS foi o nosso porta-voz. Até então, a gente não tinha ninguém para estar ali intermediando as negociações. Ela nos ajudou muito e hoje é de suma importância para nós”, destaca Rosilene.

Depois de mais de duas décadas, a Granja São Miguel carrega uma história que vai além dos números da produção. É a história de uma família que encontrou na suinocultura uma possibilidade de permanecer no campo, superar limitações e transformar o próprio padrão de vida.

Uma trajetória construída com trabalho, adaptação e persistência e que agora ganha um novo capítulo ao ser reconhecida pela entidade que representa os produtores de suínos de Mato Grosso do Sul.